A primeira vez que eu vi o Ilê Aiyê passar na avenida, eu tinha 8 anos de idade. Não lembro da emoção que senti naquele momento, mas quando eu recebi o convite para desfilar pelo bloco e vir aqui contar minha experiência, minha alegria foi genuinamente infantil. Comentei com amigos próximos: “Vou chorar”. E chorei. Ainda estou um pouco emocionada escrevendo esse texto, confesso.
Às 19h30 em ponto, enquanto subia a ladeira do Curuzu, para a concentração do bloco, no sábado, senti uma energia vibrando dentro de mim. Talvez eu nunca saiba explicar o que era essa energia. Ao ver todas aquelas pessoas juntas, esperando a Pérola Negra fazer sua 43ª passagem pelo Carnaval, eu tive a confirmação do poder do Ilê. Sou mulher negra e, mesmo modestamente, faço parte da militância. Em nenhuma das rodas de conversas de que participei, tive a experiência que o Ilê me deu.
Enquanto estive ali, senti o amor do povo preto. Eu vi irmãs e irmãos unidos, eu vi casais amando-se e orgulhosos de estarem ao lado um do outro. Eu vi toda uma comunidade que era Ilê Aiyê, mesmo não estando com os adereços do mais antigo bloco afro de Salvador. Eu vi crianças, vi idosos e soube que aquele amor era passado por gerações às quais eu nem saberia estimar quantas.